Escrevi, e ao fazê-lo o tempo passou de modo ameno. Ocupado nesta obra descobri as verdades mais banais.

Sigmund Freud, em carta a Lou Andréas-Salomé.

Desculpe se o título pareceu sensacionalista, mas se fosse: escrever para não enlouquecer, seria clichê. Além disso, não é exatamente o que acontece, já que a escrita é uma forma de luta contra a loucura, mas ela não é o antídoto. Escrever para não enlouquecer nos deixa com a impressão de que a escrita é um elemento definitivo na luta contra a loucura, mas isso é incorreto, já que a escrita não é para todos.

Eu diria que “criar para não enlouquecer” seria a frase correta, já que a escrita não é para todos, mas a criação sim, a arte sim.

Lacan trata a escrita como aquela que nomeia a loucura para os psicóticos, é uma forma de criar uma estrutura e dar-se a si, um nome próprio, já que os psicóticos se desassociam de seus nomes de nascimento e têm dificuldades para entender seus corpos.

Eu não sei como pode formar uma cabeça

Um olho enxergando, nariz respirando

Boca com dentes

Orelhas ouvindo vozes

Pele, carne, ossos

Altura, largura, força

Pra ter força

O que é preciso fazer?

É preciso tomar vitamina.

Stela do Patrocínio, 2009, p. 75).

Stela do Patrocínio ficou internada durante 30 anos na Colônia Juliano Moreira no Rio de Janeiro, onde morreu. Tinha o diagnóstico de “personalidade psicopática mais esquizofrenia hebefrênica, evoluindo sob reações psicóticas”.

Stela era diferente dos outros internos por sua fala poética. Suas falas foram gravadas, transcritas e publicadas no livro Reino dos animais e dos bichos é o meu nome, de 2001, na sua primeira edição.

A “vitamina” de que se refere Stela do Patrocínio no poema acima, pode ser associada à escrita, pois, através desta, o psicótico cria tentativas de fazer um corpo, de ter uma forma e recriar-se.

A escrita pode criar qualquer coisa, até mesmo um corpo.

Através da escrita, o louco constrói uma identidade. A escrita diz respeito somente a ele mesmo e não pede interpretação de outro, não possui público alvo.

Se estudamos Lacan, é possível perceber que o louco está fora do discurso, mas não está fora da linguagem, aí é onde a escrita entra. Com a mesma, se pode inventar uma nova linguagem, organizar seu mundo.

Lacan e James Joyce

Lacan se interessa pela obra de James Joyce e o Seminário 23 é dedicado a estudar sua relação com a escrita, chegando a conclusão de que ele não enlouqueceu de vez porque tinha uma obra.

Lacan percebeu que a escrita cria novas formas de colocação do conflito e impõe um exercício de construção.

“James Joyce nunca quis admitir que sua filha Lúcia fosse psicótica e procurava instigá-la a sair, a buscar na arte um ponto de fuga. Uma das coisas que Lúcia fazia era escrever. Joyce a instigava a escrever, lia seus textos. Até que por fim recomendaram a Joyce que fosse consultar Jung. Joyce disse a ele “Aqui estão os textos que ela escreve, e o que ela escreve é o mesmo que eu escrevo”, porque ele estava escrevendo o Finnegans Wake, um texto totalmente psicótico, se o olharmos dessa perspectiva: inteiramente fragmentado, onírico, atravessado pela impossibilidade de construir com a linguagem outra coisa que não seja a dispersão. Assim, Joyce disse a Jung que sua filha escrevia a mesma coisa que ele, e Jung lhe respondeu: ‘Mas onde você nada, ela se afoga’.”

Formas Breves, Ricardo Piglia.

Freud e sua autoanálise através da escrita

Freud escrevia compulsivamente, em várias de suas cartas ele admitia que através da sua escrita era que fazia avanços em sua obra, avançava em interpretar seu próprio inconsciente e tinha a escrita como um exercício íntimo, parte de um processo de construção de si mesmo e de sua obra.

Em entrevista ao escritor italiano Giovanni Papini (Viena, 1934), Freud admite:

Meus livros, de fato, se parecem mais a obras de imaginação que a tratados de patologia […] Eu tenho podido cumprir meu destino por uma via indireta e realizar meu sonho: seguir sendo um homem de letras, mesmo que sob a aparência de um médico.

Numa carta a Fliess:

Eis aqui alguns resíduos de minha última investida. Eu só consigo compor os detalhes no processo de escrever. Esse processo segue completamente os ditames do inconsciente, segundo o bem conhecido princípio de Itzig, o cavaleiro de domingo: “Itzig, aonde você vai?” “E eu sei? Pergunte ao cavalo.” Eu nunca comecei um único parágrafo sabendo de antemão aonde terminaria.

Freud recebia e escrevia cartas todos os dias, vivia diante de cartas, sonhos, letras, associação (auto-análise), ler e escrever. Todas as cartas que chegavam a ele, eram respondidas em até 24 horas. Muitos se perguntam sobre a força que impulsionava, e sempre impulsionou Freud na escrita das cartas.

Elas são tantas e às vezes tão íntimas e detalhadas que poderíamos pensar que elas constituem, de certa forma, uma espécie de diário, onde o destinatário é um outro imaginariamente definido.

Também em nossos diários há sempre um outro, onde criamos um espaço de escuta.

Márcia Tiburi e a escrita obsessiva

Marcia Tiburi

Márcia, além de filósofa, é muitas outras coisas. Tenho especial admiração por seus romances e pela produtividade que ela demonstra em seu trabalho de escrita.

Nessa entrevista ao programa Segundas Intenções, ela fala de seu processo de escrita do romance O Manto, que faz parte de uma trilogia. Márcia diz que por ocasião da escrita desses livros ela se considerava muito extraterrestre, mantinha uma relação obsessiva com sua escrita, levando cadernos para todos os lados, nos quais escrevia outros romances, que saíam de dentro do romance que ela já estava escrevendo.

Se considerava uma pessoa de outro planeta, distraída, que nunca entendia porque as pessoas estavam fazendo o que elas estavam fazendo.

Ela admite que o resultado da obra foi uma história com infinitas possibilidades de interpretação e histórias dentro da história. Um romance que pedia uma leitura obsessiva, tal qual foi a sua escrita do mesmo.

Os livros, calhamaços pesados ou leves, densos ou frágeis, não fazem mais do que repetir as táticas da vida e os escritores, artífices da mesma coisa, pensam ser deuses demiúrgicos capazes de inventar a história, o homem, a mulher e até a si mesmos. Não fazem mais que copiar, repetir à exaustão o que cada um que pode ler já sabe, tornando assim a coisa chamada literatura uma mera obviedade em que a curiosidade do leitor é só o que salva o escritor. (pp. 16-17)

Quantas pessoas perdem seu tempo em fugas, quando poderiam ter tido a sorte do abandono. (p. 184)

Se você quer ler uma resenha completa sobre estas obras da Márcia, entra aqui.

Por experiência pessoal não posso negar que a escrita me possibilitou uma construção como sujeito, assim como a psicanálise também (desde o estudo da mesma até a posição de analisando). Creio que a escrita sempre foi pilar no tratamento contra uma depressão, que eu só pude separar da minha personalidade, graças a escrita.

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