Esse blog post começa com uma história que eu amo, que é a história de Oshun. Na verdade, uma coisa que creio que todas precisamos entender: O arquétipo de Oshun e a situação que essa história ilustra. Essa situação que se tornou nossa condição e faz parte do que forma mulheres e homens e coloca cada um em seu lugar, esse lugar do qual tentamos sair, mas não podemos.

Dentro do livro sagrado dos Yorùbá, a diáspora Yorùbá, encontramos uma história chamada OsheTura. De acordo com esse mito, todas as deidades descem do céu para à terra para trabalhar e construir aqui.

Então os dominantes, as deidades que fazem os trabalhos pesados, como Ogun, Shangô, Obatalá e etc. começam a se perguntar porque Oshun estava ali também, qual era a utilidade dela? Seria a deusa da beleza, sensualidade e amor, realmente útil? Começam a comentar e discutir entre eles.

Oshun se dá conta desses comentários. Oshun é bastante sensível e não tolera insultos. Ela não espera ser convidada a se retirar, simplesmente vai embora…

Oshun sobe e se senta na lua, começa a passar tempo consigo mesma, passando pó em seu rosto e contemplando sua beleza no espelho. Enquanto ela faz isso, toda a água na doce na terra seca, de repente não há mais água e os deuses lá embaixo não podem trabalhar, suas construções não funcionam mais, porque o amor deixou o planeta.

Então eles voltam ao céu e reclamam para Olodumaré, o dono do céu: porque o senhor nos enviou lá pra baixo para trabalhar, se nada funciona?

Aí é quando Olodumaré nota que alguém está faltando, alguém da equipe. Ele pergunta por Oshun, onde ela está? Os comentários começam: quem precisa dela? Ela não é realmente útil…

Olodumaré invoca Oshun de seu descanso, para que ela volte e explique o que aconteceu. Ela explica que eles a insultaram e que por isso ela se foi. Olodumaré faz com que os deuses se desculpem e lhe peçam perdão. Oshun os perdoa, mas deixa claro: que não aconteça novamente! Eles evidentemente já conhecem as consequências de sua ausência.

Na religião de Matriz Africana Yorùbá, as sacerdotisas de Oshun veem a escassez de recursos e a morte da natureza, como sinais de que Oshun já não está presente no coração das pessoas, que não devotamos o devido respeito ao feminino e à criação de todas as coisas.

Elas veem na falta de água, no tráfico sexual de crianças, na fome, no desespero das abelhas que estupram a abelha rainha, sendo o mel, algo tão sagrado para Oshun, sua ausência completa.

Podemos odiar o feminino até que o feminino se canse de nós?

É o que a história desse arquétipo me faz perguntar. Sem o feminino não se pode criar nada. E quando falo isso, falo do feminino como estrutura. De uma abordagem psicanalítica que trata o feminino e o masculino como dois dexos e também, do ponto de vista das doutrinas antigas, que voltavam a cara para a natureza e reconheciam o feminino e o masculino como energias diferenciadas, e ainda assim, necessárias e presentes em todo ato de criação. 

O pano de fundo psicanalítico

Como tudo que eu escrevo tem um pano de fundo psicanalítico, sinto a necessidade de explicar, para aquelas que veem a psicanálise como uma disciplina machista e falocêntrica em sua estrutura: A psicanálise não inventou a teoria falocêntrica, a desigualdade de gêneros que pode haver dentro dela, é resultado de uma interpretação da realidade social.

Ou seja, a psicanálise observa a sociedade para criar suas teorias. Ela é uma especulação da origem simbólica do sujeito, que herda as marcas da história.

Lacan estava certo: “A mulher não existe”.

Temos que tirar isso do caminho e entender o feminino como estrutura, presente em todos os seres humanos. Já a mulher, o ser “mulher”, como uma construção social, um conjunto de significados, expectativas, tais como sensualidade, beleza, delicadeza; também um depósito de condenações, onde mora a culpa, a demonização por parte das religiões patriarcais, a impureza, a luxúria, a vaidade, etc.

Depois de ter sido criado a “Mulher” com a colaboração de diversas entidades, tais como as religiões patriarcais, o patriarcado como tal, a publicidade desde o seu surgimento, a indústria das coisas femininas e masculinas, a estrutura da família, a escola e etc., quando uma menina chega ao mundo, já existe o que ela deve ser, o que se espera dela já está e ela só precisa se encaixar.

O ser mulher, seguindo essa lógica, é produção simbólica e  pertence ao campo da representação. O sujeito se depara com o enigma do sexo, vive entre o feminino e o masculino, tentando encontrar um equilíbrio, sucumbindo e perdendo identidade à custa do modelo que a cultura tem preparado e no qual, o sujeito precisa caber.

Mulheres que são privadas da oportunidade de serem elas mesmas

O que uma mulher “deve ser”, irá sempre entrar em conflito com as estruturas psíquicas das mulheres, adoece-las e privá-las de liberdades básicas.

Se a mulher não admite o vazio, ela perde a possibilidade de colocar outras coisas no lugar. Na tentação de estender a mão e colher um estereótipo que a cultura oferece, a mulher perde a chance de se construir ou de descobrir quem ela poderia ser.  

A feminilidade é uma escolha que a mulher pode fazer ou não, mas a cultura constrói e sistematiza a feminilidade. O homem é educado para expandir seu potencial e a mulher é educada para conter seus impulsos. Quando as mulheres chegam a algum lugar, literalmente qualquer lugar, já existe uma expectativa de como ela deve atuar.

De forma que existe todo um conteúdo, um discurso que faz parte da cultura que constrói mulheres, antes que elas possam se construir.

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